(publicado em Alto Minho Especial - Caminho de Santiago - n.º 1 - 25 de julho de 2025)
“SER PEREGRINO É CELEBRAR A VIDA E CONFIAR NO CAMINHO”
Ter-se aventurado de bicicleta até Santiago há 19 anos mudou a vida de Lúcio Lourenço, peregrino e hospitaleiro de Barcelos, que lançou há dias o seu primeiro livro intitulado “Trazer o Caminho para Casa”.
“Quando cheguei a Santiago pela primeira vez de bicicleta com um grupo de amigos senti que, de facto, era algo especial. Quando regressamos a Barcelos, percebemos que a cidade precisava de um espaço dedicado ao Caminho”, recordou Lúcio, que, anos mais tarde, concretizou esse sonho com a criação do Albergue Cidade de Barcelos, na rua Miguel Bombarda, gerido por uma associação com o mesmo nome e que permanece como albergue de donativo.
“Tem capacidade para 20 pessoas. Já teve mais vagas, mas com a aumento da capacidade de alojamento da cidade, achámos que podíamos reduzir”, explicou. “Quando abrimos o albergue, tinha capacidade para oito pessoas e já achávamos que ia ser uma loucura porque nunca iríamos conseguir encher. E agora temos 20 pessoas todos os dias. O Caminho mudou muito, mesmo em Barcelos que tem a lenda do galo associada ao Caminho”, acrescentou este peregrino de 44 anos, que é engenheiro civil e encara o Caminho como o seu “escape”, estando ligado a várias associações da rota jacobeia. “São 19 anos a ler ou a ver alguma coisa todos os dias sobre o Caminho de Santiago”, sintetizou, considerando que ser peregrino ajuda-o a ser hospitaleiro e vice-versa.
“Como peregrinos, temos também de saber aceitar o comportamento do hospitaleiro voluntário, que é um peregrino que está a fazer o Caminho de Santiago parado. Eu sou hospitaleiro, mas não todos os dias porque há dias em que não temos essa abertura ao outro", admitiu.
Lançado durante a Feira do Livro de Barcelos, que dedicou um dia ao Caminho de Santiago, o primeiro livro de Lúcio Lourenço espelha a sua jornada durante um mês no Caminho Francês. Ilustrado com várias fotografias que ele próprio captou durante o percurso de 800 quilómetros, o livro é um convite para várias reflexões e paralelismos com a vida que o autor fez. Uma delas foi associar o Caminho a uma rota de paz e tolerância e outra foi em forma de alerta para a finitude, desafiando quem tem vontade de ir para o Caminho a fazê-lo porque "amanhã pode ser tarde demais".
Na apresentação do livro, Lúcio confessou a admiração e inspiração em John Brierley, filantropo irlandês e autor de vários guias do Caminho de Santiago, que ainda hoje são uma referência, para escrever a sua própria obra.
“Quando estávamos a construir o albergue, o John, sem nos conhecer de lado nenhum, bateu à porta e, sempre muito gentil, foi ver a obra e sugeriu várias melhorias. Ele sempre foi uma presença muito ativa no aconselhamento. Além disso, dividia o lucro dos guias pelos projetos associados a cada percurso", enalteceu Lúcio, partilhando muitas das ideias de John sobre o Caminho, como o facto de ser uma metáfora da vida.
“Quando partimos para uma nova etapa no Caminho é como quando acordamos de manhã para um novo dia e também fiz esse paralelismo no meu livro", admitiu Lúcio, que encara o Caminho de Santiago como uma celebração da vida.
“Ser peregrino é celebrar a vida e confiar no Caminho. Estar disponível para o que o Caminho tem para nos oferecer, sabendo que o Caminho não dá o que queremos, dá sempre o que precisamos”, concluiu.
in Alto Minho Especial - Caminho de Santiago - n.º 1 - 25 de julho de 2025